A bagunça organiza.
- Rafaela de Joani

- 20 de ago. de 2024
- 2 min de leitura
Você procura por um objeto em casa, ele não está ali onde você costumava deixar. De início, você procura não fazer tanta bagunça, já pensa no que vai ter que arrumar depois. Dá uma olhada por cima, vai direto aos pontos mais prováveis de encontrá-lo. Nada. Começa a vasculhar, joga tudo para o alto, revira a casa inteira, encontra o que nem estava procurando, se surpreende com o que pode encontrar ao bagunçar o que parecia organizado.
De repente, tudo parece fora do lugar. O que eu estava procurando mesmo? Se distrai. Pensa que precisa ser mais estratégico, organizar tudo de um jeito que nada se perca. Se analisa: aonde é que eu deixaria aquilo? Refaz seus passos, tenta recordar a última vez em que o viu. Branco.
Tem coisas que a gente encontra sem querer, sem nem saber que procurava. Tem coisa que guardamos da gente mesmo, fica lá no fundo do guarda-roupa, do baú da cama e a gente esquece da sua existência. Tem aquelas que só ao achar percebemos a falta que fazia. Outras que encontramos e nem sabemos como foram parar lá e decidimos dar fim a elas. Tem coisa que se perde tanto que a gente tenta viver sem.
No processo terapêutico, vemos algo assim. É preciso que a bagunça faça parte da arrumação, é o único meio de buscar o que se procura. No entanto, com frequência, encontramos pessoas que acreditam chegar prontas, organizadas. Pessoas que já iniciam o processo pretendendo saber o que dizer e até mesmo o que esperam ouvir. Assim, excluem qualquer possibilidade de se depararem com algo novo, inusitado. Coisa que só se encontra sem querer mesmo.
Pode ser que o imperativo social de dar-conta-de-tudo se infiltre até ali onde a bagunça poderia ser permitida. Assistimos ao mundo das performances de saúde mental em dia: ganha quem demonstrar mais conhecimento de si, quem exercer melhor o autocontrole, quem conseguir antecipar soluções e, acima de tudo, quem for o mais resiliente!
“Em time bom não se mexe”, nós costumamos dizer e é aí que o sentido de mexer é o de estragar. O medo de não dominar a si próprio, de sair com a sensação de que se perdeu alguma coisa, de que não se sabe alguma coisa sobre a própria história. Imagine receber alguém com a casa bagunçada?!
Se tudo está sempre no seu devido lugar, como foi definido o lugar devido? Mais do que tirar as coisas do lugar, não seria nos perguntar se aquele era o lugar delas ou, indo além, se elas deveriam ter lugar? A gente só mexe no que deixa de fazer sentido, no que desorienta, no que falta, no que se perde. Algo precisa sair da ordem para que se suporte uma reordenação, uma mudança.
Assim, tentemos não descartar tão depressa o que incomoda ou desorganiza. Algumas bagunças revelam que o que estava escondido só poderia ser reencontrado depois de revirar. Pode ser que algumas coisas continuem perdidas, mas mesmo nesse caso, pode ser que revirar libere algum espaço.
