Psicanalista: aquele que só escuta calado?
- Rafaela de Joani

- 28 de jan. de 2025
- 2 min de leitura
Nas buscas por atendimento, não raro encontramos aqueles que se decepcionaram com algum psicanalista, reafirmando o tal estereótipo do profissional calado, que não interage ou não responde diretamente às demandas do paciente. Mas o que isso quer dizer? Afinal, o material do psicanalista é a fala do paciente, enquanto sua principal ferramenta é a escuta.
De onde vem essa expectativa de que outro deve ter algo a dizer sobre nós? Em que medida isso também diz da impossibilidade de sustentar um discurso sem a validação externa, sem alguém que aponte se estamos certos ou errados? É aí que o silêncio do analista, muitas vezes mal tolerado ou sentido com tanta angústia, é capaz de fazer eco com o que foi dito pelo paciente e pode ser mais revelador do que qualquer resposta pronta.
É claro que, ao longo do processo, os comentários e interpretações do analista são valiosos para a direção do tratamento, mas podemos ouvir nessa queixa um sintoma social que aponta para a otimização e maximização do tempo, das relações, do consumo. Quem é que gostaria de desperdiçar seu tempo quando existem tantas fórmulas no mercado preparadas para dar respostas a quem não quer se ver com as inconsistências, as lacunas, as perdas? Receitas que nos dizem o que queremos sem que seja necessário investigar – muito menos verbalizar.
Devo concordar com o que ouvi de alguém sobre a Psicanálise não atender às demandas da sociedade contemporânea. Aliás, é o que a torna ainda mais relevante: não se adequa à cultura vigente, mas questiona os sintomas que ela mesma produz. O capitalismo vende a cura para o mal-estar que ele mesmo cria, evitando que os indivíduos se confrontem com o próprio desejo.
Nessa linha, podemos pensar que a questão não está no profissional que não fala. Me parece que não falta quem tenha algo a dizer, a diagnosticar ou comprovar. O interesse está mais em quem ainda não sabe escutar. Inclusive é interessante notar que o que os pacientes dizem ouvir de seus terapeutas, frequentemente, não corresponde ao que foi dito. Assim, importa mais o que o psicanalista tem a dizer ou o que o paciente consegue ouvir?
Talvez a Psicanálise favoreça aqueles que estão saturados dos discursos que falam no lugar do sujeito, que colocam palavras na boca sem chance de articulação subjetiva. Sujeitos exaustos de tanta informação despejada sem que a premissa central de um tratamento terapêutico seja estabelecida: a escuta.
