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O compromisso com a terapia.

  • Foto do escritor: Rafaela de Joani
    Rafaela de Joani
  • 1 de out. de 2024
  • 2 min de leitura

Numa psicoterapia, dizer que o trabalho também está do lado do paciente significa implicar a sua responsabilidade pelas transformações que deseja alcançar. Não basta que pague e compareça uma vez na semana ou a cada quinze dias, atualizando seu terapeuta dos acontecimentos diários e da sua rotina nas sessões para que sua parte esteja bem resolvida. Pelo contrário, o compromisso é atualizado a cada encontro, a cada palavra falada, a cada questão colocada muito além do cotidiano.

Pensar que o processo só será produtivo se tiver algo especial a dizer, se houver algum acontecimento importante para falar, é reproduzir um grande sintoma social da atualidade em que toda ação deve ser direcionada a objetivos específicos, garantidos, produtivos.

Embora a produtividade seja valorizada como nunca antes, encontramos cada vez mais sujeitos paralisados diante das demandas recebidas, que falam da falta de perspectiva, de ânimo, de sentido. Pessoas que sabem o que fazer, mas não conseguem dar um passo adiante, enquanto outras fazem fazem fazem e continuam a sentir que nada fizeram, que continuam em falta. Pessoas que não se sentem nunca à altura do que esperam de si, do que esperam dela ou mesmo sem saber o que é esperado.

Talvez a proposta mais revolucionária de uma terapia seja dar tempo ao que não tem e valorizar o que passa despercebido em tantos outros espaços. Ali, você não precisa performar suas conquistas diárias, fazer uma apresentação de resultados, ter um assunto importante o suficiente (que você julga importante) para que tenha o interesse de quem está ouvindo.

Aliás, um trabalho psicoterapêutico visa justamente o oposto: as contradições, os lapsos, as incertezas, o silêncio, a confusão de pensamentos e sentimentos, a falta de um discurso pronto e organizado, o não saber exatamente como dizer ou o que dizer. É um trabalho que tende a subjetivar e desamarrar o sujeito das expectativas de si e do outro, permitindo reconhecer um ser que deseja além das demandas que lhe são impostas.

Assim, assumir um compromisso com a terapia vai na contramão de uma obrigação, de uma imposição, de uma exigência como a frase “terapia em dia” nos faz crer. É uma aposta que se refaz inúmeras vezes durante o processo, uma aposta que vai além da vontade, porque nem sempre a vontade de mudar será o suficiente para abrir mão do que já estamos habituados. Queremos e não queremos que as coisas mudem e, por vezes, faremos o possível para não mexer com o que está quieto, mas reconhecer essa ambivalência é o que nos permite a escolha de persistir.

 

 
 

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