Desabafar problemas com um estranho.
- Rafaela de Joani

- 23 de jul. de 2024
- 2 min de leitura
Terapia não é desabafar seus problemas com um estranho, a menos que o estranho seja você mesmo.
Quando procuramos ajuda, com frequência o fazemos porque nos sentimos de mãos atadas, reféns de um destino que escapa ao nosso controle, que está fora do nosso alcance (ou da nossa consciência) o poder de alterá-lo.
É nesse desconhecimento, em meio a um estranhamento de si, de onde se encontra, de como se sente, do que se faz, que o processo terapêutico possibilita a escuta de si como uma surpresa, como algo que chega a nós mesmos como uma novidade.
Quem se escuta se estranha. É como ouvir a própria voz em uma gravação. Nem sempre ouvimos de nós o que esperávamos dizer, seja na escolha das palavras, no tom de voz, nas pausas, nas piadas, nos equívocos. Por vezes nos corrigimos rapidamente com "não era isso que eu queria dizer, era isso", mas basta que se dê um pouco de crédito ao que se diz, com a ajuda de alguém que saiba escutar, para que as palavras signifiquem mais do que um modo de se comunicar, de desabafar.
Disso depende uma escuta que não é a mesma de um amigo, de um conselheiro, de um familiar. Um psicólogo/psicanalista é aquele que poderá interpretar — longe de estereótipos, de moralismos, de pré-concepções e opiniões que não passam da própria experiência — aquilo que nós não compreendemos do nosso próprio discurso. É quem nos ouve dizer aquilo que, muitas vezes, não nos é permitido em nenhum outro lugar.
Enquanto somos rodeados por inúmeros discursos sugestivos e alienantes, um bom profissional é aquele que abre o sentido, que não se contenta com o que se sabe de antemão e que estranha o que já vem pronto e carregado de significações. É aquele que, ao não antecipar o que sabe (ou acha que sabe), abre caminho para um novo jeito de ouvir, de usar as palavras, de nomear o que foi vivido, tão novo e desconhecido que não pode ser reduzido em sua complexidade com receitas prontas e universais.
