Elogio ao despreparo
- Rafaela de Joani

- 28 de jun. de 2024
- 3 min de leitura
Com o crescente interesse por psicoterapia ou análise, motivado fortemente pelo impacto devastador da pandemia, propagam-se também equívocos sobre a atuação de profissionais da saúde mental e não é com pouca frequência que os mal-entendidos são disseminados pelos próprios terapeutas.
Estamos tão preocupados em provar a eficácia de nosso tratamento - inclusive em comparação com outras teorias e práticas - que nos esquecemos da humanização necessária ao nosso trabalho, humanização que nos permita escutar o sofrimento dos que nos procuram em busca de acolhimento.
Não há formação que certifique um bom clínico, assim como não há uma abordagem, um referencial teórico ou escola que possua como garantia um conhecimento fechado e completo sobre a subjetividade humana. Então, quando alguém nos pergunta quem tem as respostas, abordagem x ou y? Deve me entender mais um profissional que tenha vivido em sua história pessoal algo do que eu vivi? Como é que alguém que não passou pelo o que eu passei poderia compreender o que estou sentindo? Procura-se psicólogo de abordagem xxx, de xxx gênero, de xxx vivência, de xxx experiência, de xxx região, com xxx características.
Ignoramos - ou permitimos que ignorem - o quanto a capacidade de uma escuta empática não advém de nossa trajetória pessoal, já que quanto mais compreendemos determinada experiência com a nossa subjetividade, mais engessamos a nossa escuta, presos em nosso próprio umbigo. Pensar a dor do outro a partir do que pressupomos saber nos arranca a possibilidade de ouvir além de nosso narcisismo.
Tampouco desenvolvemos essa capacidade com o acúmulo de títulos que nos privilegiam algum status social, já que cansamos de assistir a profissionais que entendem tudo, que dominam categorias inteiras de diagnósticos, que acumulam conhecimentos curriculares, mas que chegam à prática clínica preparados para dar uma aula, ensinando o outro a nomear o que sente a partir do que supõe sem mesmo ouvir a dor daquele que está à sua frente, invisibilizando sua existência e impedindo que este possa simbolizar as próprias vivências no campo do que ainda não pôde ser reconhecido ou nomeado, no real.
No livro “Muito além da formação”, organizado pelo psicanalista Alexandre Patricio de Almeida, ele nos lembra do conceito de “tato” apontado por Sándor Ferenczi como a experiência de ‘sentir com’ sem ‘ser como’:
“Trata-se da aptidão do terapeuta para poder se envolver de modo empático e sensível com a causa de seu paciente, entendendo as razões de sua dor e sofrimento, sem se ‘misturar’ com ele, mantendo o distanciamento necessário à alteridade (Almeida, 2023, p.222).
O nosso compromisso ético profissional depende de uma formação contínua, sempre reatualizada nos contextos que a contemporaneidade nos coloca e não cabe uma crítica ao desejo de saber, de buscar novos conhecimentos, mesmo porque parte indissociável do nosso trabalho é a constante curiosidade, a de investigação que nos movimenta e leva a novas descobertas.
Cabe, no entanto, repensar a nossa prática distante de uma lógica consumista e neoliberal do conhecimento, tendo em vista que saúde mental não é um produto na prateleira dos nossos consultórios. Competir para ver quem está mais preparado para atender as demandas que nos chegam impede que sejamos afetados pelas experiências que cada vínculo terapêutico potencializa à medida que reconhecemos o que há de mais humano em nós mesmos: o despreparo (ou desamparo?) que nos é inerente.
REFERÊNCIAS
Almeida, A. P. (Org.). (2023a). Muito além da formação: diálogos sobre a transmissão e a democratização da psicanálise. Blucher.
