É mais fácil repetir do que mudar?
- Rafaela de Joani

- 28 de mai. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de jun. de 2024
Frequentemente nos perguntamos por qual motivo persistimos em algo que já se provou doloroso, ou até mesmo se justo o fato de ser tão doloroso poderia nos parecer atraente. Julgamos aqueles que repetem os erros dos pais como se fôssemos imunes a isso, até que por vezes nos pegamos fazendo ou dizendo algo exatamente como nos foi feito/dito.
Há, também, situações traumáticas das quais gostaríamos de nos livrar completamente, se possível fosse arrancá-las da nossa memória, mas ao contrário, sonhamos com elas e nos aterrorizamos novamente. Se essas experiências são tão horríveis, por que não conseguimos evitá-las em sonho, em pensamentos ou até mesmo na repetição em realidade?
De alguma maneira também tentamos justificar ou elaborar atráves da repetição o sofrimento ao qual fomos submetidos. No entanto, mais do que uma resposta simples como “continuamos fazendo na tentativa de obter um resultado diferente” parece haver um motivo mais-além para o fato de termos a consciência (ou experiência) de que certos comportamentos nos levarão ao sofrimento ou ao fracasso e escolhermos o mesmo percurso, mesmo sabendo como escapar ao prejuízo. Como explicamos aqueles casos em que mesmo pegando o sentido contrário, as pessoas se veem às voltas com os mesmos problemas, mesmas dores, mesmos impasses?
Por vezes, nos damos conta de que sabemos algo somente depois que ela se repetiu e até dizemos “eu deveria ter esperado por isso” ou “já estive aqui antes”, outras em que nos convencemos de que estávamos cegos demais para enxergar a verdade. Não nos livramos também de situações em que temos a certeza de nada saber, de nada poder evitar e culpamos o destino, a vida, os astros, os deuses: “foi o meu dedo podre”, “é karma”, “alguém com certeza desejou mal à mim”.
É disso que Freud nos fala em “Mais além do príncípio de prazer” (1920). Com diversos exemplos corriqueiros, ele nos provoca:
“Assim, conhecemos pessoas para as quais qualquer relação humana leva ao mesmo resultado: benfeitores que depois de algum tempo são abandonados rancorosamente por cada um de seus protegidos, não importa quão diferentes estes possam ser, e que, portanto, parecem destinados a provar toda a amargura da ingratidão; homens para os quais qualquer amizade tem como desfecho a traição do amigo; outros que, repetindo-o indefinidamente em suas vidas, elevam outra pessoa à condição de grande autoridade para si mesmas ou para o público, e depois de certo tempo eles mesmos desbancam tal autoridade, para substituí-la por uma nova; amantes para os quais cada relação de ternura com a mulher passa pelas mesmas fases e leva ao mesmo final etc.” (p. 95)
O que Freud nomeia “compulsão à repetição” é esse traço da “pulsão de morte” que nos faz voltar às experiências desprazerosas como em um círculo, que nos leva ao mesmo lugar. Para ele, existe um caráter conservador nessa pulsão e que almeja o retorno ao que é anterior, à inércia, ao nada. Felizmente, as pulsões de vida são capazes de equilibrar a balança e conservar ou prolongar a vida. Enquanto as pulsões de vida tendem a retornar ou reproduzir experiências prazerosas, do ser, as pulsões de morte reproduzem ou retornam ao não-ser.
Nesse belo texto, Freud também nos lembra que “a meta de toda a vida é a morte” (p. 137). Com isso, nos faz pensar que não há pulsão de vida sem pulsão de morte, já que não há vida sem morte. Passamos a vida inteira nada querendo saber sobre a morte, mas toda vez que algo dela escapa, seja numa repetição, seja em uma perda, em uma catástrofe, logo nos agarramos ao que temos de essencial em nossos laços com o mundo, naquilo que pode nos dar ou retomar o sentido de nossas vidas.
Assim, apesar do caráter destrutivo da pulsão de morte, ela não é tão negativa quanto parece pois, como Lacan descreveu no seminário “A ética da psicanálise”, o nada também é um ponto de recomeço, de criação. Nesse sentido, o que uma psicoterapia ou análise pode oferecer é a possibilidade de reconhecimento, através da fala, daquilo que sempre retorna e com frequência nos coloca em um beco sem saída. A partir do que se repete, do que retorna, do que insiste, também há a tentativa de encontro com algo novo, com o que pode se desfazer para um novo fazer e um novo modo de existir.
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer [Jenseits des Lustprinzips]. Edição crítica bilíngue. Tradução e notas Maria Rita Salzano Moraes; Revisão de tradução Pedro Heliodoro Tavares. Seguida do dossiê Para ler Além do princípio de prazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2020
Lacan, J. (1988). O Seminário, Livro VII, A ética da psicanálise Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
